PERU: uma viagem à terra dos Incas - final 
Luiz Roque - professor, poeta e escritor 
Matéria escrita em outubro/1995 para o jornal "Nova Opção"

(continuação - ver parte inicial)

Tais "deuses" realmente chegaram, na figura dos espanhóis: com barbas, armas de fogo e cavalos (não os havia na América).

Estes homens-deuses eram poucos, mas dispunham de coragem temerária, de armas poderosas, de grande poder de intriga e de ambição desmedida.

Em 1533, Francisco Pizarro marcou um encontro com Ataualpa e seus guerreiros.

Era uma cilada.

Os espanhóis, armados e em seus cavalos, mantinham-se emboscados. O padre da expedição mostra uma bíblia ao orgulhoso inca. Ele a folheia e lança-a fora.

É o sinal: os espanhóis avançam e massacram os índios. Ataualpa é preso. O império desmorona em alguns minutos. Como resgate, Pizarro exige enorme quantidade de ouro e o dobro em prata. Os índios o recolhem.

Mas o conquistador condena Ataualpa à morte. Para que escape à fogueira, obriga-o a... converter-se! A seguir, executa-o no garrote, tortura que existiu (até recentemente) na Espanha.

A seguir, há um período de matanças entre os conquistadores, cegos pela prata peruana. A situação só vem a estabilizar-se com o vice-rei FranciscoToledo. Assim, os espanhóis vão impor aos incas sua concepção de cristianismo, sua inquisição, suas touradas, seu garrote e suas doenças.

Os índios são escravizados e morrem facilmente. Se em 1533 eram avaliados em dois milhões, ao final do século XVII não passavam de 600 mil.

A alma inca foi destruída?

Se olharmos apenas a pobreza e a humildade do povo, vendendo, com olhos suplicantes, roupas, tapetes, objetos (de grande beleza artesanal), poderá nos parecer que sim.

Mas por toda parte vemos as festas populares tradicionais e alegres, o respeito aos santuários, à terra, à lhama, ao lago Titicaca. O sincretismo religioso aparece até em quadros e em entalhes de madeira feitos pelos artistas indígenas em catedrais como a de Cusco.

Os guias e os mestiços mais cultos crêem na energia de certos locais e de certas ruínas, na força de algumas tradições.

E o visitante se sente envolvido pelas montanhas, frias e nubladas, pelo mistério dos Templo do Sol; de Qengo; de Pukapukara; de Saqsaywan; de Machupicchu; do Titicaca e outros centros.

O fanatismo e a crueldade escavaram seus santuários à procura de metais, ou os cobriram com terra, para que fossem esquecidos.

Mas o estrangeiro atento verá o passado teimoso e eterno no fundo dos olhos do mais simples dos quêchuas.  

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